Influenciadores continuam a divulgar bets e cassinos virtuais no Ceará após proibição do governo federal

  • 17/10/2026
(Foto: Reprodução)
Influenceres seguem divulgando bets e cassinos virtuais após proibição do governo federal. u Influenciadores digitais do Ceará continuam a divulgar bets e cassinos virtuais mesmo após as plataformas serem proibidas pelo governo federal. O g1 verificou que, pelo menos, 40 perfis usam os stories do Instagram para divulgar os links das plataformas. No dia 25 de setembro, a proibição foi determinada pela Medida Provisória (MP) nº 1.394. A medida proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A regra também vale para os jogos on-line e os chamados cassinos virtuais, como o Jogo do Tigrinho. As bets pararam de funcionar no país, na teoria, a partir do dia 6 de outubro. O g1 entrou em dezenas de perfis de influenciadores do Ceará entre os dias 10 e 13 de outubro, após a proibição. A reportagem flagrou que os 40 influencers seguiram divulgando as plataformas de maneira explícita, em perfis abertos com milhares de seguidores, sem sequer citar a proibição do governo federal. Entre os perfis, estão influenciadores como Nayara Souza, Italo Wendel (conhecido como Belo Belo) e Jéssica Santos (conhecida como Jessica Macaxeira). Todos acumulam mais de um milhão de seguidores nas redes sociais. Jéssica Santos respondeu ao g1 que está ciente da Medida Provisória, mas "tinha contratos em andamento que precisava cumprir, e sempre prezei pela responsabilidade e pelo compromisso com aquilo que assumo". A influenciadora ponderou que reconhece "o quanto os jogos de apostas têm feito mal à vida de tantas pessoas e famílias". "Por isso, decidi que irei cumprir apenas até o fim do meu contrato", garantiu (leia a resposta da influenciadora na íntegra abaixo). O g1 entrou em contato também com os outros dois influenciadores, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. Alguns dos perfis divulgam as bets e cassinos virtuais até mesmo com publicações onde vincularam as próprias imagens às plataformas, colocando vídeos e fotos junto aos links que variam entre “tigrinhos”, “coelhinhos”, “tourinhos” e outros mascotes dos jogos de azar. Influenciadores com mais de 1 milhão de seguidores divulgam apostas após proibição desse tipo de divulgação. Reprodução. Divulgação pode gerar multa e sanção A divulgação das plataformas de apostas no Brasil não se tornou crime com a publicação MP 1.394. No entanto, o texto da medida proibiu a publicidade dos jogos com base no Código de Defesa do Consumidor. Assim, a divulgação das plataformas configura publicidade abusiva, sujeitando os infratores às sanções administrativas. ➡️Uma Medida Provisória (MP) é um instrumento legal utilizado pelo presidente da República para estabelecer regras com força de lei em situações de relevância e urgência. A MP entra em vigor imediatamente após a publicação, mas precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional, no prazo de até 60 dias, prorrogável uma vez, para se tornar lei definitiva. Caso não seja aprovada dentro do prazo, perde a validade, conforme as regras da Constituição Federal. A MP determinou que: “Ficam vedadas, no território nacional, as ações de comunicação, de publicidade, de propaganda, de marketing e de patrocínio relativas a loterias de aposta de quota fixa, em qualquer meio de comunicação, físico ou digital”. A punição ao influenciador que segue divulgando as plataformas de apostas pode variar de acordo com cada caso, como explica a advogada Raquel Andrade. “A sanção administrativa é o ponto de partida. Essas sanções administrativas, fiscais, possível aplicação de multa, possível retirada do perfil, possível retirada da publicidade, a possível solicitação de perdas e danos de direitos sobre os danos morais e materiais causados, a possível cobrança retroativa de impostos, multas administrativas, tudo isso pode ser aplicado”, detalhou. Para Andrade, o caráter da proibição feito por medida provisória deu aos influenciadores que divulgam as plataformas uma “sensação de falsa impunidade”. “Então, um influencer que não se sensibiliza com notícias de suicídio de jovens, de trabalhadores, o fato de que bilhões de reais estão saindo do orçamento para comida, para lazer, para escola, para moradia, e que, no fim das contas, só está interessado em lucrar, porque é o lucro da desgraça, lucrar em cima da tragédia alheia, eu acho que isso fala mais do influencer do que da própria lei, do que da própria norma”, criticou a advogada. O governo federal enviou ao Congresso um projeto de lei para tornar crime tanto a exploração quanto a publicidade de bets. Os crimes previstos no texto são: explorar ou operar apostas de quota fixa: pena de 4 a 6 anos de reclusão e multa; divulgar apostas ou captar apostadores: pena de 2 a 4 anos de reclusão e multa; usar dados pessoais para captar apostadores: pena de 2 a 4 anos e multa; facilitar financeiramente a exploração: pena de 2 a 4 anos e multa; fornecer aplicação de internet para apostas: pena de 2 a 4 anos e multa, com agravantes em determinadas situações. Fiscalização das apostas Em nota enviada ao g1, o Ministério da Fazenda disse que a Secretaria de Prêmio e Apostas (SPA/MF) fiscaliza os sites de apostas, de acordo com a Medida Provisória 1.394/2026. “A busca por sites ilegais é contínua e feita por meio de um laboratório virtual e pela equipe técnica da SPA, que monitora buscadores, deep web, dark web, denúncias e ouvidorias”, comentou a pasta. O órgão ministerial explicou que, quando um site que potencialmente oferece apostas é identificado, a equipe verifica se há de fato oferta ilegal. “Constatada a irregularidade, a URL é enviada à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que aciona os provedores de internet para realizar o bloqueio”, detalhou. “Em paralelo, a Secretaria identifica os meios de pagamento aceitos por esses sites e determina o bloqueio das contas financeiras usadas na operação. A fiscalização de redes sociais e de aplicativos em lojas online é de competência do Ministério da Justiça e Segurança Pública, conforme a MP”, complementou. O g1 também procurou o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Polícia Federal para entender as investigações e possíveis implicações criminais. O Ministério da Justiça repassou apenas números. A pasta detalhou que, até a última quinta-feira (15), identificou 24.783 páginas - entre sites e redes sociais - ligadas a apostas irregulares, com um total de mais de 19,5 milhões de seguidores. Já a PF respondeu que não vai se manifestar sobre a atuação no combate às bets. Site de uma casa de apostas bloqueado Isabela Ortiz/g1 Impacto mental O psicólogo Magnum Freire comentou que a divulgação de plataformas ilegais, especialmente por influenciadores, pode ter um impacto na saúde mental da população ainda pior do que com as bets e cassinos virtuais regulamentados. “Nos ambientes ilegais não há direcionamento automático do usuário para canal de apoio nenhum, então a busca sobre terapia ou até atendimento psiquiátrico para ludopatia vai ser inócua, não vai existir, isolando cada vez mais o indivíduo e reduzindo as portas de entrada para o tratamento”, afirma. O cunho da ilegalidade vinculado às plataformas proibidas pode, inclusive, impactar a percepção social do próprio jogador. “[...] desenvolve uma vergonha extrema escondendo o problema da família, das pessoas que ele gosta, até atingir a ruína total. Isso adia severamente o momento da busca por auxílio terapêutico”, destaca o psicólogo. Magnum explicou que a influência obtida por esses perfis, que acumulam milhares de seguidores, cumpre papel imperioso na vontade de apostar. Quando um influenciador divulga uma bet ilegal, ele não está apenas mostrando um site, ou um joguinho, ou um aplicativo. Ele está manipulando o cérebro daquela possível pessoa para uma modelagem comportamental. A mente humana tende a imitar e confiar em figuras de autoridade ou afeto. “[O apostador] vê aquela pessoa com um estilo desejável, ganhando um ‘dinheiro fácil’. Isso ativa, no apostador, o que a gente chama de ‘aprendizagem vicária’. A sensação falsa de que o sucesso do outro é replicado de uma forma instantânea, muito rápida, e não vai ter atalho para isso. Erroneamente, ele vai pensar que apostando vai conseguir aquilo”, reforçou o psicólogo. O que disse a influenciadora Jéssica Macaxeira "Estou ciente da MP [Medida Provisória], sim! Mas eu tinha contratos em andamento que precisava cumprir, e sempre prezei pela responsabilidade e pelo compromisso com aquilo que assumo. Por isso, optei por cumprir minhas obrigações contratuais até o fim, mas não darei continuidade após esses contratos. Reconheço o quanto os jogos de apostas têm feito mal à vida de tantas pessoas e famílias. Por isso, decidi que irei cumprir apenas até o fim do meu contrato. Ao mesmo tempo, acredito que simplesmente proibir não resolve o problema do vício, porque quem sofre com essa dependência pode acabar buscando outros caminhos para continuar apostando. Não basta proibir, é preciso cuidar, acolher e oferecer caminhos para a recuperação. Precisamos de medidas que ajudem essas pessoas a saírem desse ciclo, com apoio psicológico, tratamento e acompanhamento. Afinal, por trás de cada pessoa viciada, existe uma história, uma família e, muitas vezes, alguém que precisa de ajuda para recomeçar." Assista aos vídeos mais vistos do Ceará

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/10/17/influenciadores-continuam-a-divulgar-bets-e-cassinos-virtuais-no-ceara-apos-proibicao-do-governo-federal.ghtml


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